Minha saia, minhas regras

A roupa

O ato de se vestir, esta associado a se cobrir, pudor, ou a proteção, representação. A roupa evoluiu e se adaptou, surgiu o termo Moda que passou a influenciar na escolha da roupa não mais com o caráter de vestir, mas de embelezar, destacar. A roupa tem o poder de dizer mais sobre a gente mesmo do que nossas palavras. Ela expressa personalidade, estado de humor, classe social, hierarquia, gênero… A roupa é um poderoso meio de comunicação!

A roupa que usamos pode nos causar constrangimento, se usada inadequada para determinada ocasião. Usar branco em um casamento que não é o seu. Vestir Verde limão num funeral. A roupa também serve para igualar, quando se exige usar uniforme na escola, ou proteção quando se usa uma roupa especifica para determinado trabalho.

A roupa mostra status, classe social e pode ser usada como simbolo de poder. Roupas de “marca”, “Grife” mesmo sendo caras, despertam o interesse, pois vai alem de vestir, é também um ostentar.

Mas e se falarmos de roupa no caráter emocional? em sua escolha pelo inconsciente?
Ha quem prefira roupas semi novas, de brechós, bazar, doações e ate de empréstimo, sim ha quem aluga roupas. Mas onde quero chegar é na minha própria razão por escolher determinadas roupas.

Minha saia, minhas regras

Com minha transição de criança para adolescente, eu ganhei peso, curvas, seios, quadris. Minhas roupas mudaram gradativamente conforme iam ficando pequenas, rasgavam, ou apenas não me causavam mais interesse em usa-las. Nessa fase eu já tinha quereres, já dizia o que gostava e o que não gostava e já estava totalmente influenciada pela Moda da época do que era hype.

E sem pedir, junto com meus seios veio também as regras orais da minha sociedade, aquelas que não estão num papel, ou na constituição, mas são transmitidas e impostas. “Use sutiã” “Nunca deixe seu sutiã ser visto por baixo da roupa” “use saia, seja feminina” “Não use saia curta ou vai parecer uma puta” “Não quer que mexam com você na rua então não use algo tão justo” “Olha como ela se veste, depois é estrupada e vem reclamar” “Você já é mocinha, tem que usar um saltinho”

Então logo se aprende que por mais que sejam fabricadas e vendidas, nem todas as roupas se pode usar.

Minha preocupação pelo que as pessoas iriam pensar de mim pode ter começado ali, no ato de escolher uma roupa pra sair. Sem perceber, eu também escolhia comprar roupas pelos mesmo motivos. E antes que me desse conta o ato de se arrumar para sair se tornou um momento de ansiedade, angustia e vergonha.

Ansiedade que me fazia pensar sempre pra frente dos acontecimentos, tentando prever possíveis situações que eu poderia evitar. Angustia de não conseguir me decidir, de me aceitar, pois a Moda nem sempre veste para todos os tipos de corpos. E vergonha de mim mesma, de exercer um resultado contrario da minha intenção.

Eu cheguei a não usar mais saia ou vestido, mesmo amando, por medo de assedio. Incomodada por parecer feminina demais e preocupada que isso dissesse que eu era frágil e por isso um alvo fácil para ser atacada por um pervertido.
Quando ingressei na faculdade, eu precisava voltar para casa tarde da noite, eu passei a usar jeans folgado, blusa de moleton e tenis unisex, cabelo escondido embaixo de um goro masculino, eu acreditava que se eu parecesse menos mulher na rua eu seria um alvo ignorado.

Viver num lugar que sua roupa é usada como desculpa para motivar um abuso é assustador! Eu passei a usar roupas escuras, largas e as vezes masculinas. Apenas quando saia para encontrar meu namorado eu me arrumava, pois sabia que passaria o dia ao lado de um homem então não mexeriam comigo.
Só depois de me mudar para Nova Zelândia, que percebi o quanto esse movimento me causava ansiedade e tristeza. Aqui eu cheguei com uma mala simples de roupa, sabendo que teria que comprar roupas novas. de repente eu tinha a chance de recomeçar meu guarda roupa em um lugar que o que eu vestia era problema meu.

Sempre amei vestidos, saias e tudo que tivesse uma referencia vintage, anos 40 e 50, principalmente pela feminilidade e valorização da cintura e o acentuar dos quadris, a elegância das saia godes, midi e os cabelos com franjas. Comprei tudo isso aqui, comprei até mais do que devia hehehe, comprei meias, sapatos, blusas com gola Peter pan…

Mas quando tinha que sair para rua, ainda gelava a barriga. lembro quando cheguei em uma rua em que estava passando por obras, cheia de operários homens descansando na calçada, em seus horários de almoço.

Eu tremi, caminhei de cabeça baixa, me arrependendo amargamente de ter saído de saia, meia calça, salto, maquiada. Mas para minha total surpresa, nenhum mexeu comigo, não ouve assobio, nem cochicho, nem cantada, nem risada. Essa foi a primeira vez na minha vida que numa situação como essa, eu não sofri assedio.

E não parou por ai, eu passei a caminhar de um jeito mais confiante, feliz comigo mesma. Eu me olhava no espelho e me sentia bonita, minhas roupas estavam alinhadas exatamente com meu estado de espirito, uso colorido quando quero usar colorido. me maquio, arrumo o cabelo e escolho a roupa que eu quiser, que me faz me sentir bem, e não tem problema nenhum se ela faz eu parecer que tenho um quadril largo, ou peitos fartos, caraca eu tenho mesmo e não devia me sentir mal por isso.

Essa sou eu vindo do mercado, sim eu me arrumo até pra ir comprar pão

Passei a sair sozinha, voltar sozinha, sair a noite e voltar pra casa a noite, fui perdendo a necessidade de ter meu marido por perto o tempo todo, pois aqui eu posso ser inteira e auto suficiente e respeitada.
O peso que saiu das minhas costas, a angustia e principalemnte o medo é libertador. Eu sinto uma tranquilidade que não senti em nenhum lugar.

A principal diferença que senti vindo pra Nova Zelândia foi a sensação de segurança. Algumas coisas não mudam, de fato, vou ser sempre desconfiada e assustada, mas só vivendo em um lugar que transmite segurança que percebi o quanto o medo, ansiedade e o estresse me consumia no Brasil.

Eu andei sozinha na rua, eu voltei pra casa a noite, eu voltei a usar saia, eu uso celular e principalmente o Google Maps e não temo mais por 2 caras numa moto.
Não sofro assedio por aqui, ninguém me toca, encosta, ou fala cantadas baratas.
Eu não preciso andar com o meu marido para ser respeitada, eu sou porque é assim que tem que ser e não por que eu to com um homem do meu lado.

 

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Bjs de Luz

Priscila Nobre

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