A porta laranja da sonoridade

Eu querendo me negar a aceitar que estou deixando de ser jovem adulta e sou só adulta mesmo, fui a uma festa na USP com a minha irmã mais nova, os amigos dela e ainda arrastei marido e um amigo dele.

Na fan page do evento deu 5 mil likes, não sei o que isso significa, mas quando eles (amigos da minha irmã) empolgados disseram eu achei que era coisa boa, sorri e acenei.

Quando chegamos ao local da festa, ou party (le pari) era uma visão dos portões do inferno, e visualiza um portão bem estreito ta, lotado de jovem. Agora não dava para voltar atras, correr pra casa, pijaminha, Netflix e sofá, aquela era só a primeira de muitas situações que teria que superar.

Muita gente, muita gente jovem cheia de hormônios, muita gente jovem cheia de hormônios e alcoolizados, muita gente jovem cheia de hormônios, alcoolizados e dançando.

Era isso o que eu via.

Desculpa jovens que estão lendo isso, é o fim para mim, sou uma adulta adulta agora, não mais jovem adulta.

Eu me deliciei de comida, que fiz por bem maior não observar atentamente como era produzida e ou manipulada, bebi, dancei, fiz marido dançar, convenci ele que eramos jovens adultos e legais, e era por isso que estávamos ali, funcionou por uma meia hora.

La pelas tantas horas, acho que eram 3 am eu não me aguentava esperar mais pra fazer xixi, eu não né, minha bexiga, já estava gotejando no conta gota, se é que entende. Não podia me mexer muito, nem rir muito, olha acho que meu maior medo naquele momento seria espirrar, isso iria desgraçar tudo de uma vez. Mas eu guerreira, busquei no fundo do meu ser, as memórias daqueles tempos que eu demorava horas pra chegar em casa do trabalho, com a perseguida travada, ali no aperto…do busão.

Eu que tinha feito um discurso moral contra fazer xixi no mato, já estava cogitando essa ideia, quando avistei a fila do banheiro feminino. Era uma fila com umas 10, talvez 15 garotas, sei la, o que importa era que eu não era a próxima no banheiro e minha bexiga não sabe contar.

Minha irmã, A ousada, vai para o banheiro masculino, quando a alcanço ela ja está fazendo um discurso, para duas outras garotas e um rapaz, que veja só estava dentro de um dos box de banheiro.

Ela proclamava que era uma situação ridícula uma fila enorme no banheiro feminino, quando o masculino estava vazio, tudo era banheiro, para tudo e de todos.

Era aplaudida.

O rapaz saiu do box batendo palma, solidarizado com o discurso de minha irmã.

Assim que ele deixou o box, rapidamente percebo como era o funcionamento da porta do mesmo.

A porta laranja da sonoridade

Era uma porta, que estava com as dobradiças danificadas, pela minha rápida avaliação, algum ser humano, com pouco valor moral, se pendurou na mesma ate que as dobradiças se rompessem dos componentes (paredes/divisarias) que compunham o box do banheiro.

Com isso para se usar o banheiro (imundo, sem água, descarga, papel higiênico) com algum tipo de dignidade que lhe restava, você precisa que alguém do lado de fora amparasse a pobre porta laranja.

Mulher atrai mulher, não é atoa que cobram menos a nossa entrada em estabelecimentos, porque mulher gosta de sair acompanhada “daszamigas” né gente, e não é diferente no banheiro.

E de repente o banheiro ficou cheio de mulher.

E eu ja fui explicando: “Vejam só, essa porta é vanguardista, móbil, ela é versátil, sua maior característica é proporcionar estreitamente entre completos desconhecidos. Por exemplo, não faço a mínima ideia quem é a garota que esta ali dentro, mas cá estou, segurando a porta pra ela.”

E continuei: “Quer algo mais sonoro que isso, todas compartilhando desse momento tão íntimo. Eu seguro a porta para ela, você segura a porta para mim e ela vai segurar para você.”

E é isso mulheres devemos segurar a porta laranja da sonoridade umas pra outras, pra que todas tenham direito. Direito de falar, de ouvir, ir e vir, viver, acontecer e fazer xixi.

Eu fiz meu xixi, sei que outras depois de mim também fizeram e mesmo que alguém parafuse as dobradiças da porta de volta esse momento não será apagado.

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